Uma mentira para salvar os sonhos musicais (1)

Logo de MTV Brasil

Tenho que confessar esta mentira: para chamar a atenção dos francófonos para o mestre Antônio Carlos Jobim, sempre declarei que a Bossa Nova tinha sido meu ponto de encontro com a música brasileira. Nada mais falso do que isso!

Na verdade, são os pilares da MPB como Caetano Veloso, Gilberto Gil, ou Chico Buarque que me levaram a conhecer o famoso movimento « dos apartamentos » de Copacabana do início dos anos 60, que misturava o ritmo lento do samba com harmonias do jazz.

Um outro motivo desta mentirosa declaração inocente é que, em 1989, quando pus os pés pela primeira vez no Rio de Janeiro, não senti nenhuma conexão com o sol, o sal ou o sul, mas mais com a música americana. Mas como dizer uma coisa destas, quando a gente quer retomar o jornalismo musical em um país muito diferente. Minha paixão pelas músicas do Brasil, eu já tinha desde a compra das compilações de David Byrne dos Talking Heads.

1989: foi o primeiro ano da MTV Brasil, – muito americanizado – e meu primeiro show foi o do grupo Terra Molhada, cover dos Beatles, que se apresentava regularmente no « People », ex-magnífico clube da rua Bartolomeu Mitre no Leblon.
Foi apenas em 1990 que eu tive a oportunidade de finalmente assistir a um verdadeiro show da MPB, o excelente « Estrangeiro », de Caetano Veloso, no lendário Canecão.

Caetano Veloso: Estrangeiro (1990)

No nosso planeta, uma infinidade de lugares se associa a um gênero musical pelo qual somos impregnados assim que chegamos naquele lugar. Comecei a gostar do Fado através de Lisboa, pois eu era apaixonado pela capital portuguesa e pelas suas características.

Bem mais jovem, eu tinha visitado vários lugares onde se podia escutar o jazz em Nova York (Village Vanguard, Blue Note), onde a cidade respirava a soul e o funk em todos os andares das casas noturnas. Assim como o Godspel, jazz e soul não eram músicas para turistas no Harlem ou no Brooklyn.

The Village Vanguard, Greenwich Village, New York
The Village Vanguard, Greenwich Village, New York

 

E a gente poderia repetir a mesma simbiose com Havana. Lisboa era o Fado, Nova York era o jazz e a soul, e Havana era a salsa e seus derivados. Mas Rio não tinha a cara da Bossa Nova. Ou muito pouco. Claro que a Bossa Nova é um estilo que marcou os tempos, enquanto que o samba sempre esteve presente e ainda muito mais desde o final do século vinte.  (a seguir…..!!!!)