Chico Buarque : « Caravanas » encanta!

Chico Buarque, "Caravanas"

Não é a primeira vez que o tema e a paixão pelo futebol inspira Chico Buarque. Em 1995, o título que fala por si próprio, O Futebol, conseguia pelo seu ritmo entrecortado, nos fazer imaginar os passes entre os jogadores. Num jeito mais convencional, a música O Jogo de bola, se prolonga, em um ritmo mais lento, com algumas proezas (dribles, gols consecutivos) técnicas com neologismos saborosos, digno do grande letrista que é o artista… Mas, por uma vez, gostaria de me debruçar sobre o aspecto musical de « Caravanas »

O disco ainda trará mais argumentos para aqueles que sempre consideraram Chico Buarque como um cantor « médio ». Pois fiquem sabendo, aqueles que não conseguem entender que o timbre é a alma de uma voz, e que sua potência, é um elemento secundário que basta ser trabalhado tecnicamente. Eu sou daqueles que sempre preferiu as músicas de Jobim cantadas por Jobim, e, no entanto, ele estava longe de ser um cantor nato.

Ainda musicalmente, se Buarque compôs obras de arte admiradas por todos sobretudo entre 1966 e 1993, é surpreendente constatar que desde « As cidades » (1998), e sobretudo « Chico » (2011), o compositor chega a nos oferecer melodias que nos deixam fortemente confusos na primeira escuta, antes que possamos descobrir seus segredos e seus meandros. Assim, vocês o ouvirão pouco na rádio, mesmo se Tua Cantiga, a música oferecida em aperitivo, já alcançou um número considerável de escutas, em diversas plataformas. Chico Buarque não seria mais capaz de escrever hinos ou « paradas de sucesso »?

Chico Buarque
Chico Buarque  (foto Daniel Achedjian)

Alguns dirão que era uma outra época. Mas a verdade é que ele não é mais – evolução obriga – o mesmo compositor de trinta anos atrás. Talvez ele seja até melhor, se o julgarmos pela sofisticação de suas criações, onde nada é gratuito. Nada é fácil, sem ser inacessível, na sua maneira de usar as sequências de acordes, e de construir suas melodias em cima de harmonias complexas. A gente se lembra de músicas distribuídas em doses homeopáticas de « Chico » (2011), deixando os críticos e o público sem saber muito bem o que pensar delas. Mas o artista sabia onde ele estava nos levando, e, no final, « Chico » (2011), provou ser um excelente álbum do qual não nos cansamos nunca.

Claro que se trata de um nicho de amantes de músicas, sem querer ser elitista, que voltarão a ouvir o álbum de novo. É um disco que vai se entregar na primeira noite, nem mesmo na segunda, mas é aquele pelo qual nos apaixonaremos.

Não correremos o risco de julgar « Caravanas » em relação a seu antecessor (a gente poderia mudar de idéia após ter ouvido 5 ou 6 vezes mais, mas é a sequência lógica). Geralmente cercado dos mesmos músicos e produtores, o álbum poderia ter sido gravado durante as mesmas sessões que « Chico ». O álbum é bonito, contém 7 inéditas (isso vale mais do que 12 títulos irregulares). Um duo com a neta do artista, Clara, que traz um delicioso banho de frescor, e A Moça do sonho, uma das várias pérolas de 2001, composta com seu amigo e colaborador, Edu Lobo, na época de « Cambaio ».

Poderíamos concluir que, contrariamente a outros pilares da MPB, que reutilizam as mesmas fórmulas, Chico – como diz a expressão futebolística em francês -, não fica na sua zona de conforto, e que a maioria das composições de « Caravanas » são proezas, que ele dá a impressão de nos presentear com uma facilidade desconcertante…

Ps : sendo dedicado ao público francófono, seria muito longo esmiuçar os textos, que fala das mulheres, mas desta vez do ponto de vista masculino…

Chico Buarque
Chico Buarque  (foto Daniel Achedjian)

Chico Buarque : « Caravanas »- Biscoito Fino (Otimo !)