Ao Vivo e na escuta: Mihay, “Gravador de amor”

Mihay, 18/08, Casa de Francisca (photo Daniel Achedjian)
Mihay, 18/08, Casa de Francisca (photo Daniel Achedjian)

Falta quase nada para que Mihay, quando entra no palco, nos faça lembrar da forte presença viril de Criolo.
Se, com ele, isso aparece menos – por enquanto – se deve simplesmente ao fato de que sua música não precisa disso e que ela se aventura por caminhos diferentes e variados que evocam certos momentos musicais da banda de Kassin, Domenico, e Moreno, o famoso núcleo da vanguarda carioca dos primeiros anos do século XXI.
Mihay nasceu no Rio e “Gravador e amor”, seu segundo álbum, foi produzido por um outro carioca, Gabriel Muzak.

Este parentesco musical com a banda de Kassin salta aos ouvidos em Papapapa e Noite Clara (Mihay/ João Donato).
Mas Mihay também está cercado de paulistas: Anelis Assumpção no palco, cuja sonoridade de seu último álbum, “Amigos imaginários”, dominado por um som dub, se encontra em um ou dois títulos de “Gravador de amor” (Seu direito). A cantora interpreta, aliás, Cê tá com tempo e Bola com os amigos (2012) que se encaixam perfeitamente no repertório de Mihay.

Mihay & Anelis Assumpçao, 18/08, Casa de Francisca
Mihay & Anelis Assumpçao, 18/08, Casa de Francisca (foto Daniel Achedjian)
Mihay, 18/08, Casa de Francisca
Mihay, 18/08, Casa de Francisca (photo Daniel Achedjian)

« Gravador de amor » conta também com a presença de Romulo Fróes, Luísa Maita (na faixa de abertura, Nem tudo, com entonações da Andaluzia), Tulipa Ruiz, Mariana Aydar, e Marcelo Calado.
Para contrabalançar com estes artistas, outros nomes de prestígio associados ao Rio tais como João Donato, Kassin, Alberto Continento, e no final, canções com textos às vezes amargos, tristes, mas sobre ares e ritmos no entanto mais leves do que o ar. A faixa título, um samba no estilo de Nelson Cavaquinho (em duo – quem podia acreditar! – com Romulo Fróes), é o exemplo mais convincente.

Bem, não vamos ficar perdendo tempo com esta dualidade Rio – Sampa, cujos novos artistas já colaboram há muito tempo em parceria, e que existem sem precisar entrar em choque. Pois os melhores momentos do álbum, bastante bom e qualitativamente regular, nos faz lembrar do último álbum do baiano Lucas Santtana, “Modo avião” (Tonto ou Seu direito, por exemplo).

Vamos simplesmente nos concentrar nos textos onde a imagem e a narrativa traem a paixão visual de Mihay, realizador de vários clips dos seus colegas como Romulo Fróes, Elba Ramalho ou ainda Chico César, sem esquecer dos seus próprios, que vocês podem apreciar no site do artista.

Mihay & Banda, 18/08, Casa de Fancisca
Mihay & Banda, 18/08, Casa de Fancisca
Anelis Assumpçao, 18/08, Casa de Francisca
Anelis Assumpçao, 18/08, Casa de Francisca (photo Daniel Achedjian)

Mas assistir ao show de Mihay antes de escutar seu segundo álbum (como foi meu caso) é desconcertante. Em um formato guitarra, baixo, bateria, o palco faz com que o som fique mais duro, cru, sem as diferentes guitarras acústicas e os teclados do álbum. Dependo do seu humor do dia, vocês preferirão o Mihay no palco ou no disco. Eu estava aberto aos dois neste 18 de agosto, na Casa de Francisca (SP), mas o som da gravação, que também revela sopros, entre eles a trombeta viajante de José de Arimatéia (que lembra Guizado), seduz de cara com os diferentes climas de suas canções. Mihay certamente não é um grande cantor, mas como Gui Amabis, ele nos proporciona um álbum onde instala diferentes configurações e atmosferas pelas quais eu não estava esperando! E olha que eu estava precisando demais disso!

Mihay: « Gravador e amor » -indep- (Bom !)