Música não tem idade, a sonoridade também não: Guilherme Arantes, João Donato & Donatinho

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A vantagem não negligenciável do crítico musical que possui atrás dele algumas décadas de experiências é de ter atravessado e vivido épocas, e de ter ouvido, no seu tempo, os discos preciosos do patrimônio da música popular. Uma vantagem, na verdade, que lhe dá um distanciamento necessário que ele não tinha quando era jovem e com cabelos compridos.

Mas ali, onde a jovem geração pode lhe ensinar uma coisa importante é, que se o som de um novo álbum pode procurar uma sonoridade de uma outra época, – às vezes, até mesmo, não necessariamente, das mais inesquecíveis -, sem que seja essencial.

Perguntem aos jovens que circulam perto da 24 de maio, no centro da cidade de São Paulo, que compram de segunda mão os álbuns de Zeppelin, Genesis, ou dos Sex Pistols.

Então o quê? O crítico já rodado dirá que o último álbum de Guilherme Arantes soa como seus primeiros, e pensa que ele já quase terminou seu ofício? Um dia, será preciso entender que a música atravessa as épocas, se ela é de qualidade, mas que as sonoridades não são nunca mais que indicaçoes que nao pode dar o valor do álbum.

« Flores e cores » de Guilherme Arantes vai à procura da atmosfera dos seus álbuns que fizerem dele um dos reis da pop dos anos 80, e ele se sai bem melhor do que em “Condição humana” (2013), onde ele tentava abordar uma atmosfera mais atual. Ele se sente mais em casa em “Flores e cores”, e nos proporciona um álbum agradável, mesmo se não estamos de novo na época dos seus discos dos anos 80. Mas seu novo trabalho nos parece familiar, e dá para sentir que ele o fez com prazer, e ele é fácil de ouvir, tal qual um álbum de verão (em pleno inverno).

O mesmo para “Sintetigames”, de João Donato e Donatinho, que o filho admite que, com o gênio do seu pai, procurou todas as fórmulas da época disco baseadas nos sintetizadores vintages da época, como o famoso Synth Love. Donato se adapta, como a cada vez, à jovem geração, para um disco talvez não essencial, mas que exala uma atmosfera alegre, tal qual a capa, cercado por Davi Moraes, Jonas Sá, Rogê, ou, até, Ronaldo Bastos. Apenas Vamos sair à francesa carrega a assinatura dos ritmos balanceados típicos de João Donato.

Como conclui Donatinho no encarte do álbum: um disco de pai a filho, do filho para o pai, e dos dois músicos para o público.

Guilherme Arantes: « Flores e cores » – (regular!)
João Donato e Donatinho: « Sintetigames » – (Bom!)