O álbum discreto, mas brilhante, do Seu Jorge

Seu Jorge
Seu jorge (photo Daniel Achedjian)

Tendo escrito vários artigos sobre David Bowie nos anos 80 e no início dos anos 90, segui sem fazer muito esforço os livros publicados sobre o artista londrino desaparecido no início de 2016. A música popular brasileira tinha invadido meu mundo musical, e ficou difícil para mim acompanhar o que se passava nos países anglo-saxônicos.

Em 2016, não é preciso ter uma bola de cristal para adivinhar que as obras, desde o seu falecimento, se multiplicaram, para o melhor e para o pior, mas alguns livros se destacam por sua originalidade.

Livre "The freakiest show"

É o caso de “The Freakiest show” de Dave Thomson, que reúne todos os “covers” que foram gravados das composições de Bowie durante a sua carreira. E de vez em quando, descobrimos umas joias raras de artistas pouco conhecidos no Youtube ou Spotify.

Quando em 2003, a comédia « The Life Aquatic with Steve Zissou » de Wess Anderson, estrelada por Bill Murray, Cate Blanchett, Willem Dafoe, Angelica Huston foi lançada nos cinemas, esta história que conta a busca de um tubarão-tigre por uma equipe liderada por Murray (inspirado no comandante oceanógrafo francês Jacques-Yves Cousteau) durante uma epopeia subaquática, tinha a surpreendente peculiaridade de fazer aparecer na tela Seu Jorge que, tal um trovador, fã de David Bowie, cantarolava no violão acústico canções extraídas dos primeiros álbuns do inglês: Starman, Ziggy Stardust, When I live my dreams, Five Years, ou ainda, Changes.

seu Jorge, The life aquatic

O duplo desafio de Seu Jorge era de tocar estes títulos bem sofisticados (Life on Mars!) com um simples 6 cordas de nylon, e, sobretudo, de traduzi-los em português! As letras não têm quase nada em comum com o inglês, e sobretudo, só 5 das canções aparessem no filme. Dizer que é a trilha sonora do filme é então, exagerado. O disco aparesse mais com um prazer pessoal, já que a simplicidade dos arranjos, sobre harmonias sofisticadas, não tinha muita chance de atrair o público do artista popular que é Seu Jorge.

O resultado poderia ter sido catastrófico. E, no entanto… Quando o álbum foi lançado, o carioca dono de uma voz inigualável nos surpreendeu e o resultado foi além do que poderíamos esperar. Muito maior do que o do filme que foi um fiasco, apesar das críticas favoráveis.

The Life Aquatic

No final das contas, para início de conversa, a primeira personalidade a poder ter o direito de dar sua opinião, já que era o autor das músicas: Bowie se expressou (o que ele quase nunca fazia em relação às reprises das suas composições!) em várias entrevistas, elogiando o trabalho do brasileiro, e chegando a dizer que a maioria delas não tinham tido outras no mesmo nível ao seu conhecimento.

Que eu saiba, não houve nenhum contato formal entre os dois artistas, mas eu confirmo que o que deveria ser uma simples trilha sonora, dotada de uma capa pouco atraente, é um álbum extremamente agradável de se ouvir.

Só poderia haver um verdadeiro artista para retomar com alma títulos que tinham ajudado a fazer de Bowie, em 1971-1972, o que ele se tornou em seguida. Mesmo se o disco não faz parte da atualidade, só nos resta aconselhá-los a ouvi-lo de qualquer jeito.

 

 

Seu Jorge
Cena do filme “The Life Aquatic” com Seu Jorge