Escutando: “Selvagem” d’Ângela Ro Ro

Angela Roro

Quando em 1979, Ângela Roro lançou seu primeiro formidável álbum que levava simplesmente seu nome, as cantoras compositoras não eram numerosas no mercado da MPB.
Eu tinha muito pouco conhecimento no que se tratava das músicas do Brasil, mas certas artistas já começavam a ser escutadas nos primórdios da década dos anos 80, associadas à afirmação de um rock nacional (Marina, Paula Toller…)

Ângela havia estudado piano, e as melodias com toques de blues que ela colocava em suas harmonias, eram frequentemente elaboradas.
Tudo isso para chegar em 1990, ano durante o qual começou a ser lançada a famosa série de compilações “Personalidade”, dirigida por Roberto Menescal para Philips/ Polygram, e que era distribuída na Europa.

De repente, sem nunca ter ouvido da artista, fiquei de queixo caido escutando às melodias sofisticadas, mas irresistíveis, embaladas pela voz baixa e rouca de Ângela. Essas cançoes ou essas preciosidades que compunham a compilação nunca puderam um dia escapar do meu conhecimento. Este “Personalidade Ângela Roro” fora construído em cima dos 5 primeiros álbuns da compositora, feito de suas próprias composições, ou de versões quase autobiográficas como Demais, de Tom Jobim e Aloysio de Oliveira.

Angela Roro

Para o resto, como permanecer insensível à sucessão de Tola foi você, Gota de sangue, Amor meu grande amor, A Mim e mais ninguém, Só nos resta viver, Escândalo (Caetano Veloso), Simples carinho (João Donato/ Abel Silva), ou ainda Fogueira.

Quando em 1990, pus os pés na pista do Galeão pela primeira vez, eu estava bastante decidido a assistir a um show de Ângela, mas sua vida pessoal a havia arrastado para vários excessos, e os shows foram sendo cancelados um após o outro.

Tendo aperfeiçoado meu português, e tendo decidido começar uma série de entrevistas, obtive de Bruxelas um contato telefonico com a cantora que me informou que ela tinha feito um tratamento em Laethem Saint Martin, um pequeno vilarejo como Pont Aven (Gaughin), um lugar idílico no norte da Bélgica, a 60 km de Bruxelas, e que foi, no início do século XX, o refúgio dos pintores simbolistas, em seguida, expressionistas do país, onde eu ia muito regularmente visitar os museus, e aproveitar dos excelentes restaurantes…

Retomando a música, Ângela Roro voltou em melhor forma com “Acertei no milênio” (2000), e “Compasso” (2006), sem conseguir alcançar seu antigo sucesso. Digamos, no entanto, que os primeiros álbuns citados, apesar dos clássicos citados, estavam longe de ser regulares.
Em 2013, entretanto, “Feliz da vida” teve um melhor destino, graças à faixa-título escrita com Paulinho Moska.

E eis que nos deparamos com “Selvagem”, o álbum da Ângela de 2017, que, um pouco como Guilherme Arantes, reencontra os sons, e as inclinações musicais de seus melhores álbuns, que, assim como estes últimos, se mostra irregular, mas que se junta à inspiração de seus 5 primeiros discos com os excelentes Portal do Amor, Meu retiro, Nenhuma nuvem, E simples assim, antes de concluir com um samba sobre a lei Maria da Penha.  e um forró Parte com o capeta.

E no final, se Ângela Roro reencontra suas sensações de “blueswoman”, que a fizeram ser descoberta, faltaria apenas um título em uma novela para relançar a carreira desta artista bem à parte do círculo musical brasileiro.

Ângela Roro: « Selvagem » -Biscoito fino- (Bom!)