Ser ou não ser fã…

Fa d'un sosie Elvis Presley
Fa de um Elvis Presley “fake”

O « fã » musical é um ser à parte. É aquele que deixa os outros com um sorriso no canto da boca. Aquele ou aquela que a gente olha como se ele fosse um indivíduo fraco, dependente de todos os atos do seu ídolo, e que pode levá-lo a querer parecer com ele, incluindo seu penteado, suas roupas, seu estilo de vida, e até mesmo as suas opiniões. Em outros termos, muito além da sua arte, a música.
Todos nós assistimos reportagens sobre este personagem da nossa sociedade, às vezes pitorescas, mais, às vezes, realmente, tocantes quando o ídolo está passando por dificuldades, ou mais simplesmente, quando a morte se abate sobre ele na sua juventude, ou mais tarde. Por um instante ele é Elvis para o mundo, Roberto Carlos para o Brasil, ou Johnny Hallyday na França.

Johnny Hallyday faleceu no dia 5 de dezembro de 2017. Ele tinha 74 anos.
Se eu tenho que reconhecer sua capacidade nunca igualada tanto como poderoso intérprete do rock ou do blues francês, ou mais sutilmente das baladas (“Quelque chose de Tennesse”), quando sua voz se torna mais chorosa, eu nunca tinha me interessado pela sua vida e sua obra. Reconheço, no entanto, que sem ele, o rock’n roll nunca teria chegado na França no início dos anos 60 quando, inspirado em seu ídolo Elvis Presley, ele começou a retomar na língua francesa os sucessos americanos ou ingleses dos roqueiros do final dos “fifties”. Como Elvis, Johnny era um intérprete, mas não um autor e compositor. Mas sua atitude, como o « King », fez soprar esse vento de novidade entre a juventude do seu país.

Johnny Hallyday
Johnny Hallyday

Penso, então, nesses inúmeros fãs dos quais dei uma leve debochada ao ver as reportagens sobre estes “Johnny´s”, seus imitadores visuais ou mesmo intérpretes que só viviam para ele. Quanto a Johnny Hallyday são mais de 50 anos de carreira – alguns em baixa, mas muitos sucessos – e duas gerações de admiradores devotos. No fundo, debochar de um fã que vê seu ídolo desaparecer, é debochar de nós mesmos, para muitos dentre nós. Pois a maioria são fãs mais discretos, que seja um artista, um esportista, ou, porque não, um cientista.

Eu sempre deixei claro que sou um jornalista-fã. Além das pessoas que admirei na vida real (“admirador” é a palavra certa), e que me ajudaram a construir as minhas paixões – se tratando da música ou das artes plásticas (jornalistas musicais, professores…), eu tenho, ou melhor ainda, eu sou ainda fã de certos artistas sem, por isso, deixar que a minha paixão por suas obras me leve a querer parecer com eles. Como muitos, eu era fã dos Beatles, Queen, Lenine, Zeca Baleiro ou do Elvis, mas para ficar na música, e falar “de admirador devotado”, como eu os chamava, eu fui fã de carteirinha de David Bowie, Dorival Caymmi, e Antônio Carlos Jobim. No que diz respeito a este último, quando cheguei no Rio de Janeiro em 1990, durante a minha segunda viagem ao Brasil, eu precisava encontrar o mestre brasileiro de qualquer jeito, mesmo que fosse apenas para vê-lo de perto, dizer duas ou três palavras em inglês na época, e pedir um autógrafo. E isso aconteceu duas vezes, mas essa é uma outra história. Quanto a Bowie, aconteceu mais tarde, durante uma entrevista para a revista que me contratou para o seu show de “come-back” em 1983, em Bruxelas. Mas foram apenas 20 minutos que me deixaram poucas lembranças.

Antônio Carlos Jobim
Antônio Carlos Jobim

As mortes destes artistas não me entristeceram. A de Jobim, morto devido a uma cirurgia benigna em Nova York em 1994 me deixou surpreso, a mesma coisa quanto a Bowie, mas eu não senti nenhuma tristeza. Apenas a vontade de que a obra deles fosse reconhecida, com homenagens dignas. Se foi o caso para o britânico, continuo achando que o Brasil não se deu conta da perda de seu concidadão compositor e pianista. Será que ele é considerado como um personagem do passado para as jovens gerações brasileiras, intoxicadas pelo alimento musical radiofônico que nutre sem sabor, assim como os hambúrgueres de algumas cadeias de fast-food?
Faço inocentemente esta pergunta (que contem a resposta !). Jobim foi honrado com tristeza certamente, mas durante um período que eu qualificaria de “flash”. Eu teria gostado que ele tivesse tocado um público mais amplo, sem dúvida, que seu desaparecimento tivesse sido retransmitido e celebrado no exterior. No dia da sua morte, foi um amigo carioca quem me avisou por telefone em Bruxelas, e as “News” televisivas lhe acordaram, na França ou na Bélgica, 2 minutos no final da edição, com este tipo de frases: “E hoje tomamos conhecimento do falecimento do compositor brasileiro Antônio Carlos Jobim, autor de renome mundial, principalmente pela famosa Garota de Ipanema, e reconhecido no meio do jazz por ter tocado com Frank Sinatra, Gerry Mulligan, Stan Getz ou Ella Fitzgerald… E agora no esporte….”. Ponto final, como a gente diz. Não me lembro de nenhum programa lhe prestando homenagem nos canais, tanto na França quanto na Bélgica, onde eu ainda vivia.

Dorival Caymmi
Dorival Caymmi

Me perguntarão porque eu fiquei mais sensibilizado com a perda mais normal, em 2008, de Dorival Caymmi, que nos deixou aos 94 anos, uma idade honrosa, deixando uma obra reduzida com cerca de mais ou menos 150 canções (e quase o mesmo em obras-primas). A maioria dos cariocas não sabiam muito bem de quem eu estava falando quando a notícia foi anunciada, e foi com amigos portugueses com quem pude compartilhar as lembranças deste “personagem” que, do Rio onde ele vivia, evocava a Bahia e suas histórias de Salvador, a capital que o tinha visto nascer.
Durante noites lindas lusitanas, nós retomávamos em coro, alguns clássicos, como “Maricotinha” ou “Maracangalha”… E deduzimos que, nas suas músicas, se trata frequentemente do dilema: “eu vou”, “mas se…não vou”…. Sem tê-lo conhecido, Dorival era um compositor brilhante e cativante como um avô da nossa família que tinha aquele brilho no olhar.
Resumindo, eu fui fã, e posso sê-lo em uma escala menor, de outros artistas, mas penso naqueles de quem debochei, nestes “Johnny’s” que vivem hoje em um mundo que desmoronou. O verbo pode parecer forte demais, mas nesta hora, os faz estão inconsolaveis. A França lhe presta homenagens em grandes quantidades, e seu enterro teve mais impacto do que o de um chef de Estado. Um nada exagerado? Sim, talvez, mas não importa…. Muitos dentre nós, que queiremos ou não, fomos fãs de artistas, de atletas, ou personagens fora do comum, cada um do seu próprio jeito… Respeitemos nossas paixões.