Ayrton Montarroyos aproveita das riquezas do Brasil

Ayrton Montarroyos
Ayrton Montarroyos, 20-01, Sesc Bom Retiro (photo/ foto Daniel Achedjian)

Com a globalização dos programas televisivos de entretenimento, inevitavelmente nos deparamos com as qualidades e, sobretudo, com os defeitos que estes programas apresentam. O famoso “The Voice”, colocou rapidamente em evidência cantores e cantoras que interpretam, em um eterno molde americano, com vozes cujas entonações exasperantes são copiadas do inglês dos Estados Unidos, em outras palavras, “atletas” da voz, como existem milhares, sem personalidade nem alma.

Ayrton Montarroyos
Ayrton Montarroyos, 20-01, Sesc Bom Retiro -SP- (photo/foto Daniel Achedjian)

Como eu acompanho pouquíssimo este tipo de demonstrações que em um piscar de olhos se tornam chatas, foi com um preconceito latente que eu escutara o primeiro álbum deste jovem nativo de Pernambuco, Ayrton Montarroyos, em 2017, que, para seu primeiro álbum escolhera nada menos do que 6 arranjadores musicais para 11 títulos, sem perturbar a homogeneidade deste primeiro álbum. E ao ouvi-lo pela primeira vez, rapidamente, minhas ideias pré-concebidas foram por água abaixo.
A escolha de um Cartola pouco conhecido (Que sejas bem feliz) o mesmo para um Caetano mais obscuro – mas bonito! – (Não me arrependo), uma música inédita de Zeca Baleiro (À Porta do edifício) que deveria ser oferecida a Cauby Peixoto, mas que faleceu pouco depois; uma outra do genial Lula Queiroga (Portão), ou do jovem e talentoso Zé Manoel (Tu não sabias). Em suma, esse jovem intérprete de 22 anos que deveria ter sido descartado desde o início do programa de grande audiência, conseguiu conquistar o público com um voo mais alto, além da riqueza das músicas de seu país, mas tambem do seu estado natal. Ayrton representava o oposto de um programa onde a demonstração de força é lei.

Ayrton Montarroyos
Ayrton Montarroyos, 20-01, Sesc Bom Retiro (foto/ photo Daniel Achedjian)
Ayrton Montarroyos
Ayrton Montarroyos & Banda, 20-01, Sesc Bom Retiro (photo Daniel Achedjian)

Sua voz suave, cristalina, mas que sabe ser mais árida, lembrando Gustavo Galo, Lira, ou Alceu Valença, foi o que Ayrton Montarroyos nos deu na segunda parte do show, neste 20 de janeiro, no Sesc Bom Retiro (SP), lhe dando uma densidade mais forte, mas sempre na justa medida.

Cercado de músicos conhecidos da jovem geração como Felipe S (Mombojó), Habacuque Lima (Ludov), Rafa Carneiro e Filipe Massumi (José Miguel Wisnik/Ná Ozetti/Zé Manoel), será interessante escutar o jovem prodígio em um trabalho um pouco mais pessoal. Mas, ele possui todas as qualidades para nos encantar, se ele não estragar o que já possui e que pede simplesmente para ser desenvolvido.
Resumindo, um show coberto de nuances, que fluiu sem chatices, e com um domínio cênico simples mas perfeito.