Luiz Melodia, seu nome era “ébano” (1955 – 2017)

Luiz Melodia, 2005, photo: Dan Achedjian
Luiz Melodia, 2005, photo: Dan Achedjian

 

Há pouco tempo, comentei sobre a tristeza que podia provocar o desaparecimento de um artista que tinha tido uma importância na trilha sonora da nossa vida. E constatei que os mais marcantes não eram aqueles que nos faziam necessariamente mergulhar no “spleen”. Citei David Bowie (1946 – 2016) ou Antônio Carlos Jobim (1927 – 1994), a título pessoal.

Menos importante na minha humilde vida, o falecimento de Joe Strummer – The Clash – (1952 – 2002), Robert Palmer (1949-2003), Al Jarreau (1940-2017), ou no Brasil, a esperada passagem de Dorival Caymmi (1914-2008), me deixaram um gosto amargo. Eu poderia ter acrescentado Emílio Santiago (1946 – 2013), que eu tinha assistido no ex – Miranda (RJ) duas semanas antes que ele nos deixasse, em um show que não dava nem de longe para pressentir que a grande maldita o esperava escondida na esquina da rua.

Luiz Melodia & Renato Piaiu (photo dan Achedjian)
Luiz Melodia & Renato Piaiu (photo dan Achedjian)

E talvez ainda mais gritante, o desaparecimento de Luiz Melodia (1951 – 2017), personagem cativante, que tinha me recebido em 2005, em um apartamentozinho que tinha vista para a Lagoa Rodrigo de Freitas, acompanhado de um chá para uma entrevista, e durante a qual, muitas vezes foi colocado em questão a discriminação em relação aos saltimbancos de cor, mas também este qualitativo usado bastante abusivamente de poeta “maldito”. Pois « maldito », se ele não se submetesse às regras estritas do show business, ele o era muitíssimo menos do que um Jards Macalé, ou Waly Salomão, personagens bem mais polêmicos durante o período mais feroz da ditadura. Mas essas etiquetas pareciam não ser de grande interesse para Luiz Melodia. Filho do sambista Oswaldo Melodia, nascido no bairro do Estácio. Editando álbuns regularmente (4 por década), seu último opus, « Zérima », foi um golpe de mestre no qual o compositor reencontrou suas inclinações melódicas, que levavam a sua assinatura.

Melodia nos deixou em 4 de agosto de 2017, devido a um câncer bem raro, e ele teria feito 71 anos por estes dias.
Pois sim, ele tinha sido influenciado pela jovem guarda (Roberto Carlos, a banda da Tijuca de Tim Maia, de Erasmo Carlos); pela soul; o samba; o choro; uma pitada de jazz, mas tudo isso sempre me pareceu menos importante do que 3 fatores que só pertencem a ele. Primeiro uma voz inimitável, brincando com os graves, calorosa no limite da ruptura, sem nunca ultrapassar a linha vermelha; textos enigmáticos desde seu primeiro álbum “Pérola negra” (1973), embalado pela voz divina de Gal Costa, e um sentido melódico, que nos pegava de surpresa, apoiado em cima de ritmos pontuados por pausas.

Luiz Melodia (photo dan achedjian
Luiz Melodia (photo dan achedjian

Seguiram-se muitos clássicos como Fadas, Juventude Transviada, Ébano, Estação, eu e você, Cara a cara, Esse filme já vi; as versões de Codinome beija flor de Cazuza, Gato negro (Gétulio Cortes), Diz que fui por aí (Zé Kéti), em suma, um artista que eu ia assistir sem que fosse preciso ter uma atualidade musical. Ele era acompanhado ou por músicos ou, muitas vezes, no formato voz violão com seu cúmplice e compositor Renato Piau. Tendo se voltado de novo nestes últimos anos para o samba de tradição “Zérima” provou ser o álbum que todo artista sonha em deixar para posteridade como a última pedra batida antes de deixar este mundo musical. Luiz melodia foi um artista singular, importante, cujas homenagens nunca serão o suficiente no futuro … E se você procurasse por ele, ele estava por aí, o violão debaixo do braço, indo de bar em bar, e se houver motivo, é mais um samba que ele fazia…”