Moyseis Marques, da Lapa à Vila Madalena

Moyseis Marques
Moyseis Marques, Tupi or not tupi, 24-01-SP- foto Daniel Achedjian

Existem coisas que não posso explicar. Qual é o indivíduo que, em um dia de mau humor, se sentiu obrigado, há muito tempo, a comparar o Rio de Janeiro e São Paulo, como centro do debate o tema sobre o samba. Será que foi o poetinha Vinícius de Moraes, que, maliciosamente, enquanto se servia uma senhora dose de seu “cachorro engarrafado” favorito, teria declarado que São Paulo era o túmulo do samba? Pois bem, se foi ele, nós o perdoaremos tudo, e bastante coisas mudaram.

Pois se o Rio de Janeiro apresenta sempre jovens músicos alternativos, a grande metrópole (que já possuía seu lote de grandes compositores) desenvolveu, desde então, mesmo se inspirando de gênios cariocas como Nelson Cavaquinho ou Cartola, um samba que, com artistas com tendências alternativas, propõe um gênero urbano, árido e mais cinza, que não se opõe de jeito nenhum a um samba mais “malandro”. É uma questão que se tornou completamente obsoleta, de uma outra era, e que já não fazia nenhum sentido na sua época.

Moyseis Marques
Moyseis Marques, Tupi or not tupi, SP, 24-01, foto Daniel Achedjian

O renascimento do bairro da Lapa, no final dos anos 90, nos fez descobrir uma quantidade de músicos, grupos, cantoras e novos compositores de talentos, incluindo Moyseis Marques, Casuarina, ou Pedro Miranda, compositores inspirados. E eu poderia citar outros como Alfredo del Penho, Marcos Sacramento, João Callado, e outros mais. Ainda tenho na memória este show dos três compositores: Moyseis, João Cavalcanti, e Pedro Miranda, que haviam organizado um show bem conduzido, que eu tinha visto no antigo Studio RJ de Ipanema.

Se com o passar dos anos, São Paulo viu o nascimento de mais novas salas, como a “Tupi or not tupi”, onde se apresentou o carioca-mineiro Moyseis Marques, nesta quarta-feira, confesso que uma certa nostalgia desses shows do Rio, que estavam adormecidos dentro de mim, de repente veio à tona.

Moyseis Marques
Moyseis Marques, Tupi or not tupi, 24-01, foto Daniel Achedjian

Moyseis, compositor, excelente cantor e violonista, co-fundador de Casuarina, parceiro dos cariocas Zé Paulo Becker, Edu Krieger, e que se encaixa como uma luva – quando está na pele de letrista – na linha de Luís Carlos Vila (1949 – 2008) ou Chico Buarque, seus mestres declarados, possui aquele dom de poder ultrapassar sem fazer esforço os cânones do samba tradicional, para abordar os ritmos do Nordeste, e mostrar uma bela poesia.

Em suma, foi com esta simpatia natural que ele veio novamente visitar este novo lugar (com trocadilhos que devem ter provocado dores de cabeça!), que já, ao longo de um ano, viu se apresentar no palco os nomes atuais mais prestigiados.

Moyseis Marques & banda
Moyseis Marques & banda (Milton Mori & Alessandro Penezzi), Tupi or not tupi, 24-01, foto Daniel Achedjian
Moyseis Marques & banda, Tupi or not tupi, 24-01, foto Daniel Achedjian
Moyseis Marques & banda (Alê Ribeiro), Tupi or not tupi, 24-01, foto Daniel Achedjian

Revisitando seus quatro álbuns solos, enquanto que 2018 deveria ver nascer um sucessor, e cercado de músicos de primeira linha, para esta véspera do aniversário da cidade, era preciso estar profundamente depressivo para não ser conquistado pelo bom humor e talento de Moyseis Marques e seu grupo neste lugar onde vamos revê-lo, pois, o seu prazer de tocar em um clima acolhedor não fora, com certeza, uma amável cortesia. Como ele confessou sem meias palavras, sim, no Tupi, ele não vai demorar muito tempo para voltar…