Quando o talento se coloca a serviço da obra: Marco Pereira e Verônica Ferriani

 

Verônica Ferriani
Verônica Ferriani & Marco Pereira, 26-01, Tupi or not tupi-SP (foto Daniel Achedjian)

Muitas vezes citei o nome de Verônica Ferriani para ilustrar o fato de que, em uma certa época, o vento da renovação que soprava sobre a música da São Paulo, não era uma questão de vanguarda ou de música alternativa, mas também de uma onda de cantores, cantoras, compositores ou não, que abordavam uma música tradicional de qualidade. O fato é que, quase para me contradizer, a jovem paulista lançou em 2013, seu verdadeiro álbum pessoal, ” Porque a boca fala aquilo do que o coração tá cheio “, produzido por Marcelo Cabral e Gustavo Ruiz, cercado por alguns músicos incontornáveis do cenário independente como Rodrigo Campos.

Mas o show deste 27 de janeiro não tinha nenhuma relação com este álbum já que ele era sobretudo o do violonista Marco Pereira, que estudou e ensinou na Europa e nos Estados-Unidos, antes de retornar ao Brasil nos anos 80, para gravar álbuns pessoais e acompanhar artistas que não precisavam mais ser apresentados, ou então somente pelos seus nomes : Gal Costa, Edu Lobo, Tom Jobim, Zizi Possi, Gilberto Gil, Wagner Tiso, Daniela Mercury, Zélia Duncan, Cássia Eller, Rildo Hora, Paulinho da Viola, Milton Nascimento, Leila Pinheiro, Fátima Guedes, Nelson Goncalves ou ainda Roberto Carlos. Em outras palavras, nosso músico mostrou seu ecletismo. Sem que isso tenha sido dito claramente, nesta sexta 27 de janeiro, foi sem dúvida durante o programa “Som Brasil” de 2007, que ele descobriu a jovem Verônica interpretando Ivan Lins, que ele foi seduzido pelo talento da cantora e que disse para si próprio que a vida os colocaria, talvez, um dia, em um mesmo projeto musical.

Marco Pereira
Marco Pereira, 26-01, Tupi or not tupi-SP- (foto Daniel Achedjian)

Fora, então, necessário este projeto, que inicia o que será a comemoração dos 60 anos da Bossa Nova neste ano de 2018, para que esta associação visse a luz do dia.
Poderíamos pegar o repertório que a dupla apresentou como uma espécie de junção clássica e fácil que se apresenta sob o título genérico “Bossa Nova e um pouco de sua história”. Mas seria muito simples pegar um atalho. Marco e Verônica conseguiram a façanha, em umas vinte músicas, de fazer o elo que liga Noel Rosa, Ary Barroso, Johnny Alf, Cartola, e, exceto, talvez, Desafinado e Chega de saudade de Jobim (colaboração com Newton Mendonça e Vinícius de Moraes), músicas menos óbvias do mestre soberano carioca.

Marco Pereira & Verônica Ferriani
Marco Pereira & Verônica Ferriani, 26-01, Tupi or not tupi -SP- (foto Daniel Achedjian)

O auge deste show reside talvez nas incríveis interpretações dos três títulos do emblemático álbum “Canção de amor demais” de Eliseth Cardoso, considerado como o ponto de partida do movimento “bossa nova”: Modinha, Serenata de adeus, e Estrada branca. Três títulos com harmonias complexas, não necessariamente típicas do gênero, mas que não permitem erros. Quanto a isso, mesmo se os dois artistas não são da mesma geração, eles revelaram nestas músicas o valor da sua colaboração. Eu explico…Nem Marco Pereira, e seu virtuosismo, nem Verônica Ferriani, e toda sua técnica, exageraram, e se colocaram a serviço destas obras-primas, ali onde outros teriam tentado fazer uma proeza excessiva. Foi, aliás, a chave para o sucesso deste repertório gravado no patrimônio da música popular brasileira: colocar seu talento a serviço da obra.

Marco sabia que seria a chave do sucesso do show e, Verônica Ferriani entendeu, ela cujo talento e potência vocal poderiam tê-la feito cair na tentação de exagerar demais. No final, uma bela associação, um repertório intocável (que passou pelos títulos de Billy Banco, Dorival Caymmi, pelo violonista Garoto ou Chico Buarque), e um arranjo simples e comedido que encantou a sala do Tupi or not tupi, lotado para esta ocasião.