Os punks inglêses e brigas inuteis (2)

The Sex Pistols 1977, look agressivo construido por Mc Laren
The Sex Pistols 1977, look agressivo concebido por Mc Laren

Então, ao contrário do que muitos pensam, o punk não nasceu na Inglaterra com os Sex Pistols, mas os nossos amigos ingleses sempre tiveram o talento de chegar à fonte das suas influências, e trazer de volta ao país onde eles tinham encontrado os ingredientes até e torná-los mais criativo.
Como único exemplo falarei dos Beatles que, em Hamburgo, em 1961, retomavam títulos da soul ou dos artistas Motown, adaptando-os à sua expressão e ao seu ritmo mais rock. E às vezes com muita felicidade.
No que diz respeito a grupos punk ingleses como os Pistols, a criatividade situava-se ao nível da aparência, devido às ideias de moda de roupas de Malcolm Mc Laren e Vivienne Westwood, que vestiram elementos agressivos os fantoches encontrados à esquerda ou à direita. E então Malcolm criou o que permanece hoje a imagem clássica do punk, que era geralmente músicos péssimos, mesmo que fossem.

Malcom Mc Laren, dono do punk inglês
Malcom Mc Laren, dono do punk inglês

Mas esse não era o ponto. Tinham de ser agressivos numa Inglaterra dominada por Margareth Thatcher, que deixou a Inglaterra de joelhos durante alguns anos. Enfim, um “look” de ódio e uma razão para isso, não podia ser melhor. E era preciso cançoes rápidas para uma mensagem de rebelião, que impedia o caminho para o rock progressivo. Os Sex Pistols deviam ser feios de assustar, de jogar mal, e realmente maus. Pelo menos o seu público. O cantor Johnny Rotten assumia este personagem saído de um clinica cheio de loucos, com os olhos exorbitados, que cantava em voz alta enquanto o baixista Sid Vicious, o mais perigoso, tocava as suas três notas no baixo, como no blues, sob o efeito de cocktails ilegais injectados durante o dia. Era apenas um miúdo, que usava o seu aspecto para provocar e procurar a luta, em nome do ódio do sistema e sobretudo sob o efeito das substâncias ingeridas.

Sid Vicius, imagem do punk até hoje
Sid Vicius, imagem do punk até hoje

No entanto, artistas como a Chrissie Hynde, futuros Pretenders, Siouxsie Sioux, ou até Patty Smith, estavam interessados nele. E eles não eram idiotas. Mas basta ver as datas de exitância da banda para ver que os Pistols eram um fenomeno fugaz, muitas vezes proibidos de concertos, que não tinham o talento musical para tocar no único álbum culto saiu, “Never mind the bollocks” (77), deixando espaço para músicos de estúdio, excepto para o vocal de Rotten. Escutando hoje a bolacha, entre nós, The Clash, The Stranglers, The Jam, e até mesmo Iggy Pop eram muito mais duros na sonoridade. E de todos esses grupos de 1977, só o The Clash pode ser considerado o grupo punk mais credível em seus dois primeiros álbuns.
Mas mesmo que Strummer, o cantor do The Clash, afirmasse que os Rolling Stones estavam «mortos», a banda tocava a mesma música, mais rapidamente, pode ser, com volume mais forte. Mas o natural que regressa ao primeiro plano, «London Calling», a sua obra-prima de 1979, é fortemente influenciado pelo rockabilly e pelo ska. Os Stones, The Clash, eram simplesmenterock.

O punk, como vemos hoje, terá sido fruto deste designer de moda, Malcolm Mc Laren, que aproveitou a situação política do país, que deu um tema que os americanos, preocupados com outros problemas, não exploraram. Na verdade, os Pistols não estavam interessados na monarquia, mas sim na provocação. À excepção de Sid Vicius, os outros membros evitavam participar na violência dos fãs, ao contrário dos Stranglers, verdadeiros músicos talentosos, mas que, segundo uma entrevista de Jean Jacques Burnell, o baixista, tinha que lutar para impor-se, quando não era seu objetivo. Mas não tinham medo. Burnell era um cinturão negro de karaté e o guitarrista Hugh Cornwell, não muito forte mas muito agressivo, não hesitava em descer no público quando o comportamento de adolescentes embebidas em cerveja não era educados à maneira inglesa. Quanto a Jet Black, o baterista, só a sua aparência afugentava os que procuravam brigas.
Os Stranglers tinham quase 30 anos, formaram-se, e confrontar fãs de outras bandas, fez com que ganhassem a simpatia de bandas protegendo a banda, dando-lhes a oportunidade de se concentrarem nas suas melodias barrocas.

The Clash, a banda punk mais credivel
The Clash, a banda punk mais credivel
The Stranglers, os mais talentosos, e mais agressivos
The Stranglers, os mais talentosos, e mais agressivos

Seria injusto não citar grupos precursores dessa época, que iriam lentamente fazer esquecer as bandas de rock progressivo, como The Buzzcocks do genial Pete Shelley, Magazine, Generation X de Billy Idol, ou as bandas de ‘pub rock’ como o excelente Doctor Feelgood, que influenciarão muito o trio «mod» The Jam, cujo líder, Paul Weller, 18 anos, se rebelou com uma certa ingenuidade nos seus primeiros textos, desde o primeiro álbum, «In the City», influenciado pelo rock agresivo mas também pela soul de Motown.

The Jam, com Paul Weller à direita, os "mods" na linha dos Small Faces ou The Who,com musicas sociais rock e soul
The Jam, com Paul Weller à direita, os “mods” na linha dos Small Faces ou The Who, com titulos sociais,  rock e soul

Ao contrário dos punks, Ele respeitava a rainha, os símbolos ingleses, mas estava a atacar os políticos e a primeira-ministra, e a denunciar o racismo no seu sucesso (‘Down in the tube station at midnight’), e os eventos raciais, como The Clash (com ‘White riot’), e denunciar a energia nuclear em seu primeiro número um inglês ‘Going Underground’, obra-prima absoluta, em 1980.

The Jam ganhando uma popularidade enorme na Inglaterra, com uma série de número um nas paradas, ainda iam se separar em 1982, Paul Weller, o cérebro do grupo, escolhendo uma música próxima do seu amor pela música soul americana. Ele fundou o Style Council com Mike Talbot, ex-pianista da Dexy’s Midnight Runners.

Mais cedo, quando The Ramones atravessaram o mar atlântico, eles já eram conhecidos na Inglaterra, e foi a guerra dos gangs para descobrir quem ia abrir o show. Os dois baixistas Paul Simonon (The Clash) , e Burnell envolveu-se numa rixa violenta e foram os Stranglers que, tendo uma popularidade nas vendas, que abriram a festa, o que reacendeu a chama do ódio entre os “gangs”. Mas sera que todas estas lutas provam a existência do punk musicalmente. Não, como explicarei no próximo post. (a seguir)

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